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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Sem título

Continua a chover lá fora, mas eu sinto cá dentro a chuva a cair sobre a minha cabeça. Consigo sentir as pingas frias cair uma por uma, certeiramente na minha cabeça. Sinto também a água escorrer-me pelos cabelos, pela cara e a roupa a colar-se aos poucos ao meu corpo. Mas não me movo da cadeira. Cada vez mais me pesa a roupa. Arrefeço sentada em frente à janela. Os lábios ganham tons entre o violeta e o roxo e a pele enrruguece muito, muito descolorada. Vou tremendo. Primeiro as pontas dos dedos, depois os braços e o corpo todo sucessivamente. Apenas oiço a chuva a bater violentamente na janela e o tiritar dos meus dentes numa melodia insurdecedora interrompida por rajadas de vento que agitam os vidros e fazem bater a porta do fundo. Deixo de me sentir. Os pés estão frios demais, as mãos estão frias demais... Paralisei finalmente. Deixei de ver a chuva cair, e de a sentir. Caí no chão seco e quente do quarto, como se caísse no alcatrão molhado da estrada que avistava da minha janela. Mas estou sozinha. Ninguém repara que estou ali. Todos me pisam e atropelam sem se aperceberem. Vão-se abrindo feridas no pedaço de mim que ainda existe, que ainda não morreu... Vão escorrendo lágrimas entre as gotas de chuva que me cobrem.
Só depois, quando dum momento para o outro a força com que o chão me atraía abrandou, reparei... Morri.